O tempo hoje corre rápido demais.

O tempo hoje corre rápido demais. Tão rápido, tão rápido que parece nem haver tempo para entender ou processar aquilo que aconteceu ontem ou poucas horas atrás. Parece que perdemos a capacidade de raciocinar, de entender o contexto e a complexidade de tudo o que nos cerca. Vemos muito poucos interessados ou a procurar discutir com seriedade o que está a levar a nossa sociedade a viver na idade das trevas.

Recentemente, e numa cerimónia de dedicação de duas crianças a Deus, segundo o costume cristão evangélico, teci alguns comentários sobre o que escrevera para o momento e agora reproduzo aqui. Estava perante os pais, os padrinhos e alguns familiares e amigos. E porque sou pai (e agora avô também) percebi uma vez mais o grande desafio e responsabilidade que os pais enfrentam.

As dificuldades no sustento da família devido ao custo de vida, obriga muitos pais e mães a trabalhar fora de casa, forçando-os assim a entregar a terceiros a educação dos filhos. E nas escolas, muitas das crianças são apenas “formatadas e não educadas”. Nem podemos responsabilizar os professores por não o fazerem, pois muitos deles não têm competência e formação para isso, nem esta é a sua principal tarefa. Eles existem para serem promotores da inteligência colectiva, enquanto os pais, estes sim, são os educadores por excelência na/da/para a vida.

E é aqui, a meu entender, que o problema de vivermos numa sociedade de alienados começa. As crianças, após a escola, deveriam voltar para o seio da família e lá, sim, receber a educação básica para a vida. Elas acordam bem cedo para ir para as escolas. Almoçam a maior parte das vezes por lá. Chegam ao fim do dia a casa. A primeira coisa a fazer, em complemento muitas vezes ao que já fizeram durante todo o dia, até nas escolas, é actualizar a conversa no snapchat ou WhatsApp, colocar os gosto ❤️ nas páginas dos amigos do Instagram, enquanto assistem às parvoíces dos seus bloggers favoritos ou a mais um sucesso de uma música onde em cada cinco palavras, dez são palavrões. Alguns, porque existe um pouco mais de possibilidades financeiras na família, ainda vão ao ginásio, às aulas de informática ou música.

Ao jantar, sentam-se à mesa com os pais e irmãos, se for caso disso, e continuam mais próximos dos amigos “virtuais” do que daqueles que partilham o mesmo espaço, a mesma mesa, a mesma comida com eles. Por vezes, lá comentam de forma superficial uma reportagem da TV (caso se consiga ver algo mais para além daquilo que os meninos gostam), pois desconhecem o seu contexto e complexidade. E o mais trágico disto tudo é quando os pais, que não tiveram tempo nenhum com os seus filhos ao longo do dia, estão igualmente agarrados ao telemóvel, actualizando o Facebook (sim, é para os cotas) e o Instagram (há que se modernizar um pouco) ou se não, têm os olhos fixos na TV que nem reparam o que se passa à volta.

À noite, os filhos vão para o quarto ou não, para ficar diante dos telemóveis de última geração oferecidos pelos papás porque o menino comeu a sopa toda, do Portátil ou PC (já um pouco antiquado para a malta nova) a navegar por sites duvidosos, a jogar online ou a conversar com os ditos amigos, que os pais nem conhecem nem se preocupam em conhecer, até altas horas da madrugada, pois os pais, cansados, querem é sopas e descanso.

No final de semana, os que já são mais jovens, acham a sexta-feira o “máximo”. Tudo já foi combinado anteriormente. Nada pode falhar. E se falhar, é o fim do mundo. E porque não há nada igual às noitadas de sábado, durante o dia dormem para que estejam em forma à noite, para mais uns copos, umas brincadeiras de “papá e mamã” (mesmo antes de terem aprendido a brincar às casinhas) com a colega que dá umas baldas e passa de mão em mão, e vai-se saber lá mais o quê?!

E sei que o artigo já vai longo, mas ele é mesmo só para quem se interessa.

Estes jovens são lançados da infância, cada vez mais curta, directamente para a vida “adulta”, passando pela adolescência sem piscarem um olho. E a questão a colocar é: Qual a estrutura e a base que estes jovens terão para superar conflitos pessoais? Comportam-se como adultos aos 13, 14, 15 anos e, em muitos casos são tratados como tal, mas não são adultos, são crianças e adolescentes que não sabem absolutamente nada da vida ou se sabem, sabem muito pouco. Mas é-lhes cobrado como se soubessem de tudo, e pior, eles acreditam que sabem. Eles querem ser aceites! Lógico e justo que sim. Mas infelizmente querem ser aceites num mundo irreal de aparências!

Neste “nosso” mundo do “parecer”, do “faz de conta”, do consumo do corpo perfeito, da mentira perfeita, do dinheiro a qualquer custo, do consumir e exibir, da exposição sem limites, da falsa propaganda que vende vidas “perfeitas” somos “forçados” a fazer parte desta sociedade de “mentira”. Na sociedade do consumo do corpo perfeito, da vida perfeita, do ser perfeito, não existe espaço para “ser humano”, não existe lugar “para sermos quem somos”, para sermos aqueles que exibem as suas imperfeições, pois o imperfeito não cabe na aparência perfeita do mundo da mentira.

Todos nós queremos fazer ou ser parte de algo. Principalmente quando somos jovens. Nosso grupo ou turma é a nossa razão de ser e estar no mundo. Comportamo-nos como tribos, somos territorialistas e, fazer parte deste “algo” confere-nos identidade. E aí, para fazer parte deste mundo, o jovem, qual cordeirinho manso, segue a tribo, mesmo que em muitos casos, nem saiba por que está a fazer aquilo, e mesmo que saiba que muitas coisas que faz são erradas, vale a pena correr o risco para “ser” parte!

E neste mundo, empoeirado, tenta-se forçar o sujeito a aderir sem contestação ao padrão de ser e estar neste “mundo”, reduzindo sublimes e maravilhosas peculiaridades e particularidades, ou seja, as nossas magníficas diferenças, numa uniformidade que se encaixa na perfeita adequação a uma sociedade padronizada, uniforme, opaca, moralista, hipócrita. É a construção de um mundo baseado em mentiras e sem alicerce.

As inquietudes da nossa alma deveriam ser tratadas em nossas relações quotidianas, primeiro no seio da família, depois nas escolas, relacionando-nos com os professores e com os colegas de aula, com os amigos e também com os inimigos, com os namorados ou namoradas, patrões… Vivendo as nossas experiências boas e más, e aprendendo a entendê-las. Passando por frustrações e aprendendo a superá-las.

Este é o ciclo natural das coisas. É preciso viver para compreender a vida. Viver todas as emoções, boas e más, sorrir, chorar, vencer, perder, amar, rejeitar, ser rejeitado, ter amigos, inimigos, construir alianças, quebrá-las… Cabe à família dar o suporte, fornecer o alicerce para que este ser, mesmo em épocas de tempestade, não desmorone. E na convivência quotidiana, construirá o seu edifício interno, com janelas, portas, divisórias, que poderá abanar em muitos casos, mas jamais desabar se bem estruturado.

Mas como educar se os pais não têm “tempo” para ajudar os filhos a construir a sua estrutura? Os filhos não têm “tempo” para escutar o que os pais têm para dizer... não me admira nada que não chegue o tempo em que as conversas entre eles sejam feitas via redes sociais. Os amigos não têm todas as respostas. E talvez o mais triste para esta geração, o Google não tem todas as respostas.

Antes de qualquer outra instituição surgir, Deus constituiu a família. A viga mestra de todas as coisas. Famílias fortes, geram uma nação forte, uma igreja forte. Pais, despertem para a vossa tarefa. Enfrentamos dificuldades? Sim. Temos falta de tempo? Sim. Mas vocês têm a capacidade de gerir tudo isto. Não se deixem envolver por toda uma atmosfera negativa criada em volta da família. Estejam sensíveis às necessidades dos filhos. comuniquem com eles. Separem tempo para estar com eles. Conheçam os amigos deles. Estabeleçam limites mesmo que eles não gostem. Os educadores sois vós e não eles.

 

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Uma Igreja família que frutifica e implanta o Reino de Deus.

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